Arquivo
*

MEMÓRIA TRILHOS

A minha opinião é que esse trabalho é uma referencia para nós próprios contarmos aos mais íntimos. Quando penso em escrever alguma coisa é para os meus netos, nem sequer é para os meus filhos. Se fui formatado pelos meus avós, eu também tenho de o fazer com os meus netos.

Pascoal Mucumbi em entrevista ao projecto a 03.07.2011

*

RETRATO TRILHOS

O NOSSO OBJECTIVO ERA APROXIMAR OS ESTUDANTES DAS COLÓNIAS PORTUGUESAS. POR UM LADO ARRANJAR BOLSAS PARA QUE PUDESSEM FORMAR-SE E POR OUTRO LADO, FAZER COM QUE PARTICIPACEM NA LUTA DE LIBERTAÇÃO.

Maria Luís Gaspar, nascida a 1 de Março de 1938 em Luanda.

Filha de Sebastião Gaspar Domingos Martins, que seria enviado para o Campo do Tarrafal após o “Processo dos 50”. Luísa cresceu num meio de ideais nacionalistas e pertenceu ao CEJA, organização de jovens da Igreja Metodista. Em 1958 foi para o Portugal com uma bolsa da Igreja. Teve contacto com o Clube Marítimo Africano através de Agostinho Neto e conviveu também com outros estudantes e nacionalistas na Casa dos Estudantes do Império. Após as prisões de 1959 em Luanda decidiu sair de Portugal e em 1960 fugiu para a República Federal da Alemanha. Em 1962 participou em Rabat (Marrocos) na constituição da UGEAN. Voltou para a Alemanha onde estudou, trabalhou num hospital e prosseguiu a mobilização de estudantes para apoio à luta em Angola, antes e depois do 25 de Abril de 1974.

A 11 de Novembro de 1975 ainda estava na Alemanha e regressou a Angola em Dezembro de 1976.

*

RETRATO TRILHOS

OS PORTUGUESES TINHAM UM CIRCUITO TÃO FECHADO QUE NÃO PERMITIA, NAS ZONAS RURAIS, SABER O QUE SE ESTAVA A PASSAR. OS ANGOLANOS QUE ESTAVAM NA ZÂMBIA OU NAS MINAS DA ÁFRICA DO SUL TINHAM MUITO MAIS INFRMAÇÃO.

José Domingos Francisco Tuta “Ouro de Angola”, nascido a 14 de Agosto de 1943 no Moxico.

Estudante na missão evangélica do Muié, no Moxico, José Domingos concorre depois para uma vaga do curso de monitores escolares no Luena e apesar de ter passado o lugar lhe é negado por fazer parte de uma missão catalogada como tendo ligações com os “terroristas”. É em 1966 que tem os primeiros contactos com guerrilheiros e decide enquadrar-se na guerrilha indo para uma base militar perto da zona onde mora. É na guerrilha que recebe o nome de guerra Ouro de Angola. Participa em várias acções combativas e organizações de bases militares da luta anti-colonial na zona leste de Angola.

A 11 de Novembro de 1975, quando é proclamada a independência, encontrava-se numa trincheira na zona do Grafanil.

*

BASTIDORES TRILHOS - MOÇAMBIQUE

A viagem a Moçambique começou com um contratempo. O avião que nos levaria despenhou-se antes de chegar a Luanda e só conseguimos chegar 3 dias depois. Para agravar a situação o equipamento só chegou um 1 dia depois impossibilitando-nos de começar as entrevistas. Uma viagem inicialmente prevista para 10 dias passou para praticamente 5 dias.


Ainda assim o objectivo principal do trabalho foi cumprido. Conseguimos fazer mais de metade do plano previsto com destaque para a grande entrevista com Marcelino dos Santos num total de aproximadamente 14 horas. Foi uma honra puder passar tanto tempo com esta figura emblemática não só da luta de libertação de Moçambique mas também da luta anti-colonial em vários países africanos.
O sucesso desta viagem deveu-se em grande parte graças à Ilundi dos Santos que se demonstrou incansável tanto no contacto com os entrevistados como a reunir as condições logísticas para o trabalho.


Infelizmente apanhamos Maputo em dias de chuva, não tivemos oportunidade de filmar a cidade, um bom pretexto para lá voltarmos.

*

RETRATO TRILHOS

NAS MATAS, OS PORTUGUESES ATACAVAM MUITAS VEZES... NÃO CONSEGUIAMOS CARTAR ÁGUA, NÃO CONSEGUÍAMOS ARRANJAR COMIDA. MUITAS VEZES SÓ CONSEGUÍAMOS DAR CUSPE AOS NOSSOS FILHOS

Marta Miguel, nascida em 1943 no Zala.

Com apenas 15 anos é escolhida para trabalhar na colheita de café. Recorda com dor as palmatórias que levava por não conseguir encher um saco de café por dia.
Quando se dá a revolta de 15 de Março de 1961 no norte de Angola, Marta segue com o marido e os filhos para as matas para s refugiar dos ataques aéreos feitos pelos portugueses, juntando-se assim à resistência contra o colonialismo português.

A 11 de Novembro de 1975 encontrava-se em Caipemba. Acompanhou com alegria o proclamar da independência de Angola através da rádio.

*

BASTIDORES TRILHOS - HUAMBO

Na província do Huambo, a equipa trabalhou essencialmente na recolha de depoimentos mas filmou também dois locais históricos: a Missão Evangélica do Dondi, por onde passaram muitos dos que mais tarde se juntaram à luta e o Cumbila, no Londuimbale, onde em Abril de 1961 foram mortos vários angolanos pela polícia portuguesa, na sequência das acções de Fevereiro e Março no norte do país. João Baptista Tombo foi um dos entrevistados que relatou o facto.

Na cidade do Huambo, Margarida Lombendo Tchitata cujo pai mantinha ligações com a família de Agostinho Neto em Luanda, foi uma de muitos jovens nacionalistas perseguidos pela polícia no início dos anos sessenta. Casimiro Sérgio Franco descreveu aspectos da clandestinidade ao longo do Caminho de Ferro de Benguela. Joel Pessoa Cholonjele fez parte da rede clandestina de Jonatão Chingunji, da UNITA, sendo preso com ele e desterrado para o Tarrafal, em Cabo Verde, onde ficou de 1969 a 1974.

*

BASTIDORES TRILHOS - KWANDO KUBANGO

Revisitar o KK poderia ter levado a equipa de trabalho a envolver-se com uma história mais recente. Mas era preciso cumprir os objectivos deste projecto: recolher, com a maior abrangência e urgência, memórias de quem levou o país à independência em 1975. Menongue, Cuito Cuanavale e Mavinga foram os principais pontos de recolha de material.


Lugar histórico da violência colonial e de terríveis recordações é o campo prisional do Missombo, a 20 km de Menongue. Por ali passaram muitas centenas de presos políticos angolanos: inicialmente os detidos após a revolta de 4 de Fevereiro de 1961, como Imperial Santana, Paiva Domingos da Silva e dezenas de outros; em 1962 chegou o "grupo dos 36" presos em 1960 por pertencerem ao MPLA e que tinham passado primeiro por prisões de Luanda e pela Colónia Penal do Bié (Capolo). No final de 1966 a PIDE aconselhou o encerramento do já superlotado campo, por receio do avanço da guerrilha do MPLA na região. Cerca de oitocentos presos foram então transferidos para o Campo de S. Nicolau, no Namibe.


O registo das imagens das cadeias do Missombo (I e II) seria enriquecido dias depois com a explicação detalhada de Diniz Luís, entrevistado no Huambo donde é natural, integrante do grupo do 4 de Fevereiro e detido durante vários anos no Missombo.


Uma figura emblemática da luta de libertação é o Comandante Kwenha Kwangungo (Macai Moanda ou Macai Mpande) cujo esquadrão continuava a luta na zona de Mavinga em 1972, quando outras forças do MPLA tinham sido forçadas a recuar para Sikongo, na Zâmbia. Companhias de Comandos do exército português reforçadas com unidades dos ditos Flechas (organizados pela PIDE) e apoiadas com helicópteros com canhão, além do uso de desfolhantes que destruíam as lavras, davam vantagem militar aos Portugueses. No início de Janeiro de 1973, Kwenha comandou o ataque contra um grupo de Comandos do exército português na nascente do rio Cuma, mas foi mortalmente ferido. Com Tomás Kaxela “Ngola Yetu” e Alfredo Kavavo “Leão”, a equipa deslocou-se ao local do seu último combate e onde foi sepultado, 90km a oeste do município de Mavinga.


Foi a partir do Cuito Cuanavale, e com o apoio aéreo do governo provincial, que a equipa regressou ao território do Moxico, separado pelo rio Kuando do KK, para visitar o local onde, a 25 de Setembro de 1968, num ataque português à base de Hanói III (Posto de Comando da Zona C) foi morto o médico e combatente do MPLA Américo Boavida “Ngola Kimbanda”. Também foram ouvidas pessoas da população local que tinham contacto com o CIR (Centro de Instrução Revolucionária) da Zona C, no rio Muesse. João Martins Silêncio Lupassa, enfermeiro, guerrilheiro, testemunha da morte de Américo Boavida e bom conhecedor da área, foi o acompanhante e explicador.


Com o apoio de Silêncio e de João Kali Kinguila “Pensa Bem” registaram-se também imagens do provável local do primeiro Posto de Comando da Zona D da 3ª Região Militar do MPLA que dirigia as acções a leste da província do Kuando-Kuabngo.


Dezenas de depoimentos enriqueceram os dados sobre as situações vividas durante a luta no Kuando Kubango e noutras áreas. Manuel Samba “Coragem” entrevistado em Menongue, enfermeiro, foi dos primeiros participantes em acções na província. Kalenga Makondo “Ajuda Mútua”, entrevistado no Cuito Cuanavale, foi veterano da Zona D, enquanto Manuel Dala Cacoma, entrevistado em Mavinga, participou no último combate do Comandante Kwenha.

*

BASTIDORES TRILLHOS - BIÉ

Bastidores Trilhos - BIÉ from Projecto Trilhos on Vimeo.

Entrevistados do MPLA e da UNITA sublinharam a importância do pessoal dos caminhos-de-ferro na circulação de informações e no estabelecimento de redes clandestinas apoiando de várias formas a luta pela independência.


Lote Chivava Guilherme "Sachikwenda", entrevistado no Kuito, é um dos sobreviventes do famoso campo do Tarrafal em Cabo Verde. Foi preso com o já falecido Jonatão Chingunji em 1969, quando a PIDE detectou a rede clandestina da UNITA com centro no Luena e que se estendia ao longo da linha do CFB.


Ainda nesta parte da viagem, Luciano Muvemba (MPLA) relembrou tempos da clandestinidade no Cuemba; e José Kassanga (MPLA), natural do Ninda, que fez parte do grupo enviado pelo MPLA para a Bulgária em 1966, esteve na Zona B da 3ª Região, referiu como testemunhou a morte de Hoji ya Henda no ataque a Karipande.

 

*

BASTIDORES TRILHOS - MOXICO III

Bastidores Trilhos - MOXICO III from Projecto Trilhos on Vimeo.

Na história da luta armada, é bem conhecido o papel das mulheres no apoio logístico aos guerrilheiros, mas não só. Maria Vitumbo Kaunda, entrevistada no Lumbala-Nguimbo foi guerrilheira do MPLA na Zona E da 3ª Região Militar.

Outro local histórico filmado foi o da assinatura do acordo de cessar-fogo entre a direcção do MPLA e representantes do governo e exército portugueses, a 21 Outubro de 1974, no Lunyameje, pondo fim à guerra de quase 14 anos. Acordos similares tinham já sido assinados com a UNITA e a FNLA.


No regresso ao Luena, muitas entrevistas preencheram a agenda da equipa, graças aos contactos previamente feitos pela delegação local dos Antigos Combatentes  e por membros dos diferentes "movimentos de libertação" da época, provando que um trabalho deste tipo pode cruzar as fronteiras partidárias actuais.
João Martins Silêncio Lupassa, antigo combatente do MPLA, acompanhou a equipa até ao Lucusse e a bases da Zona A que albergaram comandantes destacados como Kanhangulo, Pambassangue e outros. Enfermeiro, durante a luta de libertação "Silêncio" passou por várias zonas militares do MPLA. Acompanhou o Dr. Américo Boavida e testemunhou a sua morte, na Base Hanói III. Foi o principal guia da equipa dos Trilhos tanto no Alto Zambeze (Zona A da 3ª Região Militar) como mais a sul, na Zona C. Mas estes foram locais visitados a partir de Menongue, uma outra etapa da viagem.


Tomás Mohongo Saluka era o soba da área de Lungué-Bungo que acolheu Jonas Savimbi e o seu grupo e continuou com ele durante todo o período de guerrilha. Também Paixão Nguvulo Benguela recordou no Luena o seu passado na UNITA, que o levou a ser preso e detido no campo de S. Nicolau (Namibe) de 1967 a 1974.
Uma entrevista inesperada foi a do Padre Estêvão, levado por guerrilheiros do MPLA em Outubro de 1968 e recuperado pela tropa portuguesa quase um mês depois.

Quatro dias de trabalho na área do Lungué-Bungo, central na história da luta anticolonial da UNITA, permitiu entrevistar antigos combatentes dessa organização, em Sachimbanda, Catapi e Sachindamba, registar cânticos da época e filmar locais como o do 2º congresso da UNITA em 1969.


O trabalho da equipa dos Trilhos nesta área contou com o precioso apoio de Amadeu Calumbuana "Tira a Mão", já entrevistado, destacado chefe da UNITA na área nos tempos da luta de libertação. Em Sachimbamba, Mário Baptista Saluhanza recordou o trabalho na linha-férrea e nas serrações de madeira no início dos anos 60. Ouviu falar do MPLA mas juntou-se à UNITA. Relembrou os combates em que participou até ao momento em que foi ferido. Ainda em Sachindamba, entre as mulheres entrevistadas esteve Lotina Tchissola, secretária da LIMA (organização feminina da UNITA) de 1967 a 1971.
Já na rota do Moxico para o Bié, a equipa parou em Cavimbe, estação do CFB onde, num ataque à linha-férrea em Julho de 1970, morreu um dos co-fundadores da UNITA, membro do "grupo dos onze" treinados na China, David Jonatão Chingunji “Samwimbila”.

*

BASTIDORES TRILHOS - MOXICO II

A partir de 1966, a luta pela independência de Angola teve como um dos principais cenários a região que se estende pela Lunda-Sul, Moxico, Kuando-Kubango e parte do Bié. O MPLA abriu a Frente Leste em 1966, desdobrando-se progressivamente em regiões e zonas várias. A UNITA começou a sua acção no mesmo ano, estabelecendo-se principalmente no Moxico entre os rios Luanguinga e Lungué-Bungo. A FNLA também actuou, em menor escala, no Alto Chicapa.


Naquele espaço de grande diversidade etnolinguística e histórica, onde a fraca densidade populacional torna as distâncias geográficas ainda maiores, foi enorme o esforço para a implantação da guerrilha anticolonial. A mobilização das populações, os problemas logísticos causados pelas longas distâncias e as características do terreno, os sucessos e insucessos militares, as desconfianças e confrontos entre as próprias organizações nacionalistas angolanas (habilmente utilizados pela contra-insurreição portuguesa) são aspectos que ganham nova dimensão quando explicados pelos que viveram os acontecimentos. São vozes únicas que é urgente continuar a registar.

Depois do trabalho na Zâmbia, o regresso a Angola fez-se pela comuna do Ninda, província do Moxico, rumo ao Luena via Lumbala-Nguimbo e Lucusse.


Daniel Kativa “Berlim” reside no Ninda. Antigo comandante na guerrilha em diferentes zonas militares da designada 3ª Região Militar do MPLA, partilhou as suas memórias e dispôs-se a ser o guia dos "Trilhos" nas deslocações ao Sete (local de um ataque do MPLA) e às bases Hanói I e Hanói II, incluindo o local onde se realizou a primeira assembleia regional do MPLA, em Agosto de 1968. Foram as primeiras bases guerrilheiras no sudeste da província do Moxico e serviram para a expansão da luta para o Kuando-Kubango e do Bié.


Nalguns casos foi possível filmar o que resta dos locais de ataques a quartéis ou casas comerciais. O ataque do MPLA ao Sete (Monteiro), dirigido pelo Comandante Monimambo e onde morreu o comandante Kakueji, marcou em 1966 a abertura da luta armada na Zona C da 3ª Região Militar do MPLA.

*

BASTIDORES TRILHOS - ZÂMBIA

Bastidores Trilhos - ZÂMBIA from Projecto Trilhos on Vimeo.

A viagem prosseguiu para o interior do território zambiano, tendo sido cruzado mais de oito vezes o rio Zambeze, de jangada ou pelas pontes, em todo o percurso próximo à fronteira com Angola. As passagens por Chavuma, Zambezia (ex-Balovale), Mongu, Sikongo, Lusaka e outros locais proporcionaram não só entrevistas com Angolanos e Zambianos, como também a visita a sítios que marcaram a solidariedade que os Angolanos receberam naquele país no período da luta de libertação. O apoio dos consulados angolanos em Solwezi e Mongu, bem como da Embaixada em Lusaka facilitaram os trabalhos realizados. O Dr. Mark Chona, político zambiano, além de ter acedido a ser entrevistado, tornou possível a realização da entrevista com o 1º Presidente zambiano Kenneth Kaunda.


Entre os entrevistados encontram-se Samiatchi James Kapalu Savualia, zambiano que recebeu os primeiros angolanos que se instalaram em Kassamba, David Japão Correia Cassamba, que participou no ataque a Lumbala-Caquengue ou ainda o mais-velho Nelson Chicoma, um dos primeiros nacionalistas angolanos na Zâmbia.
Entre outros locais históricos que as câmaras filmaram, estão as famosas bases de Kassamba e Sikongo que serviram de suporte logístico a várias regiões da guerrilha no interior de Angola. Também foram registadas imagens de locais históricos de passagem de dirigentes nacionalistas em Mongu e Lusaka bem como alguns depósitos de material militar da época.


Em meio às belezas naturais próprias de uma viagem desta dimensão, a equipa enfrentou os incontornáveis acidentes de percurso.


Concluída a etapa da Zâmbia, era tempo de regressar a Angola mas já por um novo “trilho”, a rota Mongu-Sikongo que levaria a equipa novamente ao Moxico, agora mais a sul, na comuna do Ninda…

*

BASTIDORES TRILHOS - MOXICO I

Seguindo o plano traçado, de oito a 22 de Junho a equipa fez entrevistas e outras filmagens no Luena, Lumege-Kameia, Luau, Cazombo, Lumbala-Kakengue e Caripande.


Foi em língua Luvale que se fizeram a maior parte das entrevistas e mais uma vez o trabalho de um tradutor foi fundamental.


Nesta primeira passagem pela província do Moxico, 42 entrevistados contaram as suas lembranças da história da luta pela independência nos respectivos movimentos de libertação, como os casos de Amélia Massoje Namoginga (MPLA), Moisés Mulenga Kambakaia (FNLA) e Moisés Njolomba (UNITA).


As entrevistas evocaram muitas vezes lugares de marcante significado que, em alguns casos, foi possível filmar. Por exemplo, as Bases Certeza e Tchissombo que foram as primeiras bases de guerrilha a norte do rio Cassai na designada 4ª Região Militar do MPLA, onde ainda é visível um antigo depósito de armas. Foi também o caso do túmulo do Comandante do MPLA Hoji Ya Henda, perto do rio Londoje, na comuna de Caripande. A zona de Teixeira de Sousa (actual Luau) evoca um momento significativo do início da luta armada da UNITA, o ataque àquela vila em Dezembro de 1966.


Na comuna de Lumbala-Kakengue, situada nas margens do rio Zambeze, foram filmados cânticos e momentos de teatro que retrataram as vivências do tempo da guerrilha. À noite a equipa pôde usar os seus recursos audiovisuais para criar um espaço de convívio animado com a projecção de fotografias e filmes.

*

BASTIDORES TRILHOS - LUNDA SUL

No seu quarto ano de actividade, o projecto da ATD "Angola – Nos Trilhos da Independência" definiu um marco fundamental: 90 dias de viagem, por terra, no leste de Angola com passagem pela Zâmbia. O objectivo mantém-se desde o início do projecto, em 2010: recolher depoimentos e registar imagens de locais históricos relacionados com a luta de libertação nacional, numa perspectiva o mais abrangente possível. Isso significa entrevistar combatentes e não combatentes, personagens bem conhecidos e outros anónimos, militantes de organizações políticas ou crentes de diversas igrejas que também sofreram a repressão colonial. No caso do leste do país, era necessário recolher o testemunho de membros da FNLA, do MPLA e da UNITA, já que estas três organizações ali combateram, de armas na mão, o colonialismo português.
Com este objectivo a equipa de sete integrantes fez-se à estrada a 1 de Junho pois viajar por terra, é no cacimbo!


A preparação e planificação do longo percurso contou com alguns apoios, tanto institucionais como privados, destacando-se principalmente os dos Governos Provinciais e respectivas administrações municipais e comunais, das Delegações dos Antigos Combatentes, das Forças Armadas Angolanas e da Polícia Nacional. A colaboração de elementos dos três partidos historicamente envolvidos na luta pela independência foi essencial. No terreno, foi fundamental a solidariedade da população local com a equipa do projecto Trilhos.

A primeira etapa de trabalho desta viagem foi a Lunda Sul. Saurimo, Dala e Cazage foram os principais pontos de paragem. Entre os locais históricos filmados destacam-se o Centro de Instrução de Cazage, onde o MPLA formou muitos jovens que viriam a distinguir-se nas Forças Armadas, e o túmulo de Nicolau Gomes Spencer “Muandoji” destacado combatente e comandante de uma Região Militar do MPLA, tombado durante a luta de libertação em Samugimo.


A maior parte das entrevistas realizou-se nas línguas locais com ajuda de tradutor. É sempre difícil destacar alguém, quando se entrevistam pessoas que protagonizaram a luta pela independência do país. Na Lunda-Sul, entre os 62 entrevistados encontram-se representantes dos três movimentos de libertação, como José Nelito Cajambi “Não Contava” (MPLA), Garcia Kiteta (UNITA) e Francisco Lingueno (FNLA). 


Momento forte desta recolha de testemunhos é, sempre, o registo dos cantos da guerrilha preservados na memória colectiva. Aqui, pudemos sentir a sua força mobilizadora, interpretados por mulheres que guardam a memória daqueles tempos.
Com 52 horas de entrevistas registadas em vídeo na Lunda Sul, a equipa Angola - nos Trilhos da Independência fez-se à estrada rumo ao Moxico.

*

RETRATO TRILHOS

NÓS TÍNHAMOS CONSCIÊNCIA DE QUE AS COISAS NÃO ANDAVAM BEM. VÍAMOS COMO AS PESSOAS ERAM TRATADAS. ESTÁVAMOS CONSCIENTES DE QUE HAVIAM COISAS QUE DEVIAM ACABAR.

Manuel Rodrigues Boal, nascido em 1934 na Muxima, Angola.

Filho de pai português e mãe angolana passou a sua infância no Dondo onde frequentou a escola primária. Mudou-se mais tarde para Luanda onde terminou o liceu e em 1955 parte para Lisboa para frequentar o curso de medicina.

Em Portugal faz parte do grupo de estudantes que frequentavam a Casa de Estudantes do Império participando já aí em algumas actividades clandestinas.

Em 1961 faz parte da chamada “Fuga dos 100” (saída de Portugal de vários estudantes pertencentes às ex-colónias) para Paris. Mais tarde parte com outros estudantes para o Ghana e depois para Léopoldville onde se junta a luta de libertação.

Anos mais tarde viaja para Dakar onde se encontra com a sua mulher e filho e começa a participar em actividades do PAIGC. É também em Dakar que frequenta a universidade para fazer a especialidade e em 1969 defende-a em Paris. Quando regressa instala-se em Conakry permanecendo ligado ao PAIGC.

A 11 de Novembro de 1975 faz parte da comitiva da Guiné Bissau que vem a Luanda assistir a independência de Angola. Após a independência da Guiné-Bissau assume o cargo de secretario geral do Ministério da Saúde e em 1995 muda-se definitivamente para Cabo-verde.

*

RETRATO TRILHOS

EU TENHO ORIGEM NA ESCRAVATURA. OS MEUS AVÓS QUE NÃO SABIAM LER NEM ESCREVER FORAM LEVADOS COMO ESCRAVOS DA SUA TERRA DE ORIGEM PARA SÃO TOMÉ

André Miranda, nascido a 20 de Fevereiro de em 1934 em Pedroma, São Tomé

Quando tinha 7 anos de idade a sua mãe vê-se forçada a abandonar o marido por não aguentar mais o trabalho forçado mudando-se para a cidade com os filhos onde fica até 1941.
É durante a sua adolescência que se muda, com um dos três irmãos, para Angola passando pelo Bié, Luanda e finalmente em 1949 instala-se no Lobito onde trabalha e aproveita para completar a 4ª classe.

É no Lobito onde assiste os primeiros sinais de revolta e consequente repressão por parte do colono é então aconselhado por um amigo a abandonar o país. Em 1962 foge para Dilolo, Congo-Kinshasa.

Em 1964 muda-se para Lusaka, Zâmbia para se juntar à luta de libertação onde participa em diferentes missões no interior de Angola.

Em Junho de 1973, por questões de saúde,  retira-se do interior do país e segue para a União Soviética onde frequenta durante 9 meses um treino político-militar.

A 11 de Novembro de 1975 encontrava-se em Lusaka com a esposa e filhos. Nos anos 80 foi embaixador de Angola na Zâmbia, Zimbabwe e Botswana. Hoje está reformado.

*

RETRATO TRILHOS

INICIAMOS ESSA LUTA COM CATANAS, BENGALAS E CANHANGULOS AS ARMAS DOS MAIS VELHOS

Paulino Pascoal da Silva “Decidido”, nascido a 12 de Julho de 1941 na zona de Quibaxe.


Foi guerrilheiro no Norte de Angola. Em 1966 vê chegar o  Destacamento Cienfuegos e no ano seguinte, o Destacamento Kamy.
Participa em várias acções combativas contra as tropas coloniais no norte de Angola. “Houve sempre várias acções contra o colonialista: cortar café, fazer fosso, cavar buracos para os carros inimigos caírem e não avançarem até às populações”


A 11 de Novembro de 1975 encontrava-se ainda no interior das matas e recebe ordem para sair. Hoje vive no Cage Mazumbo.

*

RETRATO TRILHOS

A MEMÓRIA, NO CASO DA NOSSA TERRA, É O CIMENTO COLA QUE HÁ DE UNIR TODOS AQUELES CACOS QUE JÁ VÊM DE TRÁS E OUTROS QUE FORAM FEITOS ENTRETANTO.

José Vieira Mateus da Graça “Luandino Vieira”, nascido a 4 de Maio de 1935 em Portugal.

Com 3 anos de idade mudou-se com os pais para Luanda onde passou a sua juventude e terminou os estudos secundários.
Cedo se envolveu em actividades clandestinas contra o colonialismo acabando por ser preso pela primeira vez em 1959, sendo um dos acusados do Processo dos 50. Volta a ser preso em 1961 acabando condenado a 14 anos de prisão sendo transferido para a Prisão do Tarrafal (Cabo Verde) em 1964 onde passou 8 anos tendo sido libertado em regime de residência vigiada em 1972 ano em que se muda para Portugal. Regressa a Angola em 1975
A 11 de Novembro de 1975 estava nos estúdios da TPA (Televisão Popular de Angola) a garantir a transmissão da proclamação da independência. Hoje dedica-se inteiramente à literatura, como autor e editor.

*

RETRATO TRILHOS

 

ÉRAMOS MUITOS QUE QUERÍAMOS A INDEPENDÊNCIA E QUEM PODIA FAZER O QUE FOSSE PARA AJUDAR A INDEPENDÊNCIA CONTINUAVA A FAZER.

Arminda Correia de Faria, nascida a 6 de Novembro de 1919 em Luanda

Inicia em Luanda o curso de Enfermagem em 1943 mas teve que desistir por questões de saúde. Participa em acções clandestinas em Luanda e é presa pela primeira vez em Janeiro de 61. Assiste aos assaltos às cadeias no 4 de Fevereiro da sua cela na 8ª Esquadra. É libertada em Março de 1961.
Em Portugal é novamente presa na véspera do seu regresso a Angola. Foi julgada em Maio de 1966 e esteve presa em Caxias durante 14 meses.
A 11 de Novembro de 1975 estava de serviço no hospital São Paulo, em Luanda. Hoje vive em Luanda e está reformada.

*

CUBA

Os trilhos percorridos para fazer de Angola um país independente, tiveram pontos de contacto com Cuba. Hoje, com 37 anos de independência, para seguir os trilhos da nossa luta, trabalhar Cuba e os protagonistas que se cruzaram com a nossa História era um troço de caminho desejado. (..)

 

*

Cuba, Novembro de 2012´

 

Os trilhos percorridos para fazer de Angola um país independente, tiveram pontos de contacto com Cuba. Hoje, com 37 anos de independência, para seguir os trilhos da nossa luta, trabalhar Cuba e os protagonistas que se cruzaram com a nossa História era um troço de caminho desejado. A caminhada comum vem de tão longe que, no segundo dia da nossa estadia em Havana, fomos colocar uma coroa de flores no busto de Agostinho Neto situado numa praça ao lado de outras figuras conhecidas como Samora Machel, Ngouabi, Nasser, Nkrumah etc... A simbologia foi forte.
Mas comecemos do princípio!

O projecto foi apoiado por um dos associados da ATD, o Jorge Risquet, amigo de Angola de há muitos anos que, apoiado pelos kotas Puente-Ferro e Oramas, nos ajudou a estabelecer os principais contactos de que necessitávamos.
A TAAG transportou-nos e foram cerca de 13 horas de voo sobre o oceano atlântico. Chegar a Cuba, às 4 horas da manhã, foi uma forma simbólica de fechar o ciclo de trabalho previsto para 2012. A ansiedade e expectativa venceram o cansaço e, ao aterrar, houve palmas e alguns “Viva Cuba!”.
Apesar da hora tardia, os nossos anfitriões esperavam-nos fresco, simpáticos e incansáveis na demonstração da hospitalidade que começou logo com o apoio necessário para sairmos do aeroporto com todo o equipamento.
Tínhamos duas semanas para trabalhar e conhecer Havana! Era preciso aproveitar em todos os sentidos pois o plano de trabalho para recolha de entrevistas para o projecto era intenso, mas cada um de nós queria também “descobrir” Cuba e a vivência dos cubanos.

Foi chegar, arregaçar mangas e lançar mãos à obra. Às 11 horas estávamos a trabalhar. Enquanto o Paulo acordava o plano de trabalho, a equipa técnica preparava o cenário para as entrevistas. O espaço que nos foi cedido para realizar esse trabalho, uma sala no edifício da OSPAAAL, para além de ter as condições de que precisávamos, estava carregado de simbolismo pois tratava-se da sede da Organização de Solidariedade com Povos da Ásia, África e América Latina que tinha por função apoiar a luta dos povos daqueles continentes pela sua libertação.

Quase todas as entrevistas se realizaram nesse mesmo espaço de forma a rentabilizarmos o tempo e recolher o máximo de depoimentos possível, mas pudemos também fazer algumas entrevistas no Centro de Documentação Ché Guevara e en Las Terrazas e outras nas residências dos entrevsitados.

Quando o tempo é curto e o trabalho muito, a planificação é fundamental. Levávamos a estratégia definida mas para a apurar contámos com a colaboração do Oramas. Um kota muito fixe que nos pareceu exactamente “un hombre sincero de donde crece la palma” e que, para além de nos parecer dizer “quiero echar mis versos del alma” como no poema de José Martí, nos acompanhou e apoiou o Paulo na planificação e marcação das entrevistas.

E, além das entrevistas, o projecto incluiu a recolha de imagens de locais Históricos. Foi assim que no dia 1 de Dezembro a equipa foi a Santa Clara, a 4 horas de carro de Havana, onde visitámos o Museu e o Memorial a Che Guevara e o Memorial dedicado aos cubanos caídos em combate em Angola.

 

Em Cuba, realizámos mais de duas dezenas de entrevistas e o Projecto Angola – Nos Trilhos da independência, atingiu a marca simbólica de 500 horas de registo.

À margem da intensa actividade para o projecto, aproveitámos a estadia em Cuba para uma reunião com o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfica) que se mostrou muito produtiva. Tanto que saímos do encontro com marcação de duas entrevistas a realizadores cubanos que fizeram filmes sobre Angola e recebemos convites para a participar na abertura do 34º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano. Uma feliz coincidência com a data da nossa estadia, da qual foi um prazer poder disfrutar.

Como em todas as nossas viagens, além do trabalho há sempre um tempo para um dia de descanso que nós, os mais jovens aproveitamos uns para conhecer a Havana Velha, uma zona da cidade que está a ser reconstruída, com ruas muito estreitas onde a música se impõe em todos os cantos e outros, claro, a praia de Varadero!

Na hora de regressar, para além do que aprendemos da relação entre Angola e Cuba, marcou-nos ainda mais a simpatia sempre presente no povo desta ilha, mesmo neste momento ainda de luta e resistência. Entendemos todos melhor porque se canta com tanto gosto “Cuba que linda és Cuba” e… porque se tem sempre de voltar.